Mesmo com a crescente profissionalização do poker, ainda há espaço para que amuletos, superstições e manias façam parte do jogo e tragam, de acordo com quem acredita neles, maior sorte. Esse é o lado que, somado à estratégia, faz com que jogadores carreguem determinadas camisetas na mala de viagem, separem os stacks de maneiras únicas, falem bordões em momentos especiais ou até mesmo desfilem com cadeiras.
É esse o caso de Caio Mansur, conhecido por ser visto nos salões carregando a sua cadeira de jogo quando há uma troca de mesa, por exemplo. Outro caso bastante observado é a “proibição” de ficar de braços cruzados atrás do jogador. Fábio Freitas comenta sobre isso. “Quando eu sinto que alguém chegou perto que pode ser pé frio, ou cruzou o braço atrás de mim, eu espero ela ir embora, levanto meio que disfarçando que vou dar uma esticada, empurro a cadeira para trás, dou uma volta nela para um lado, depois para o outro lado, e depois sento. Aí sai a zika.”
Um jogador que pegou essa superstição e levou a outro nível foi Eduardo “Sequela” Fernandes: não pode nem sequer ficar atrás dele durante o jogo. Muito menos tocá-lo. Dá azar, segundo a lenda do poker de rua.
Quando o assunto é organizar as fichas, cada um tem um jeito, e alguns levam para o lado da superstição. Hermógenes Gelonezi, por exemplo, fala que prefere “stacks grandes. Melhor 25 fichas de 1.000 do que uma de 25.000 ou cinco de 5.000. Ficha atrai ficha“.
Já para Fábio Freitas, a lógica é outra. “Tenho a mania de deixar as fichas sempre arrumadas. Dependendo do tipo da ficha, eu gosto de deixar sempre a mesma face para cima. É até engraçado, porque quando eu pego um fichário em que as duas faces são iguais me dá até um alívio por não precisar arrumar [risos].”
Também há aquilo que não é exatamente uma superstição, mas um bordão que virou tradição. O caso mais famoso certamente é o de Leo Rizzo e seu “É tudo do Oitavo, pow pow pow”, seguido por “eliminación” quando derruba algum oponente. Não se sabe se traz sorte ou azar, mas certamente todos no salão ficam sabendo que teve eliminação. Ainda tem outro clássico do jogador: ir de all-in no escuro na primeira mão, independente do torneio.
Isso sem contar as cartas que, quando chegam na mão de certos jogadores, despertam uma ação imediata: seja o fold por trazer más lembranças ou insta call por relembrar algum momento de glória ou conquista.
E por falar em cartas, será que alguma ação ajuda de fato a vir uma mão melhor? Fábio Freitas conta. “Quando eu recebo as cartas e a primeira é Q, K ou A, e só quando são elas, na hora que a segunda chega eu não olho. Pego bem no cantinho e fico acariciando, esquentando a pontinha dela, até a hora da minha vez de jogar. Aí quando vou jogar, é uma filadinha bem de ladinho assim. Geralmente quando é o K, vem KK [risos].”
Por fim, ainda existem alguns casos famosos de certa mística por trás de algumas combinações. As mais famosas incluem o medo do JJ, conhecido por perder mãos inacreditáveis; jogar confiante com um 77, por ser o par que mais trinca, ou buscar a glória máxima com um Doyle Brunson. Isso significa ter um T2o na mão, que, mesmo sendo considerada uma combinação fraca, foi a responsável por trazer dois braceletes para a lenda americana de mesmo nome, e por isso recebeu tal apelido dos jogadores de poker.
É importante dizer que, assim como Fábio Freitas explica, essas atitudes são mais para criar rituais, passar o tempo ou ajudar a concentrar do que de fato criar alguma alteração no jogo. “Essas questões ajudam a passar o tempo, eu vou organizando e pensando na minha estratégia. Mas tenho convicção que não muda nada, é mais superstição mesmo e para me ajudar a focar na mudança das fichas, das cartas e tudo mais.”











